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Coronavírus – Os desafios da educação à distância

Coronavírus – Os desafios da educação à distância

Como educadores, alunos e pais estão enfrentando esse momento

Sem registro de ocorrência similar no Brasil que pudesse servir como parâmetro, a quarentena imposta como uma das medidas de enfrentamento ao Coronavírus, após 25 dias de aulas regulares do ano letivo, pegou educadores, pais e alunos de surpresa, impondo rotinas que atingiram a tudo e a todos.

Sem tempo hábil para um planejamento, as respostas surgiram de maneiras diversificadas, em função da condição de todos, afinal quem estava, por exemplo, preparado para o Ensino à Distância, tão familiar para uma pequena parcela da sociedade?

Nós fomos a campo verificar como esta situação está sendo encarada em Corupá e trazemos um resumo do que encontramos em mais um momento em que a criatividade e improvisação do brasileiro foi testada.

Secretária de educação, fala sobre o desafio de reinventar metodologias de ensino

Responsável pela definição dos rumos a serem seguidos pela educação em nosso município, a secretária de educação e cultura Rosane Martini Berti, recebeu a nossa reportagem e falou sobre esta nova experiência da sua pasta.

“Todos fomos pegos de surpresa e no início permitimos que cada instituição de ensino municipal, com seus professores, seguisse o seu rumo e elaborasse o seu planejamento”, disse Rosane. Após este início, aconteceu uma avaliação onde foi detectada a necessidade de mudança de rumos, pois a existência de metodologias diferentes até o quinto ano com a Positivo, e outra a partir deste, exigiam ações também diferentes. Outros fatores que pesaram foi a dificuldade encontrada tanto por professores quanto por pais de alunos, das tecnologias necessárias para assimilar esta nova tendência.

Foram criados grupos de professores reunindo os docentes das quatro escolas por período Pré I, Pré II, 1º Ano, 2º Ano e Disciplinas Específicas, fazendo o planejamento que seria enviado para análise e avaliação pela secretaria e cadastramento no Sistema de Educação. A secretária explica que apesar do tempo transcorrido, o processo ainda está sendo adaptado; “verificamos que em alguns momentos havia muito conteúdo e muitas atividades, e que os professores somos nós e não os pais”.

Rosane mostrou que todo o sistema de educação corupaense sempre teve a preocupação quanto ao momento também vivido pelos pais, “precisávamos considerar fatores como pais em quarentena, pais desempregados, agravamento de situação financeira por motivos diversos, pais chegando em casa cansados pelo dia trabalhado ou stressados pela pressão do momento, e pais sem condição de ajudar os filhos, pela falta de conhecimento”. A secretária fez questão de ressaltar o esforço de toda a equipe que precisou se reinventar, sair da zona de conforto, se adaptar a condições adversas como a dificuldade de acesso à internet enfrentada por alguns alunos o que obrigou a impressão para disponibilização das atividades para os alunos.

Diversas perguntas ainda estão sem resposta, “Foi divulgado início de agosto para o retorno das aulas presenciais, mas ainda não existe confirmação e muitas ações precisarão ser tomadas para que isso aconteça; são ações como higienização da escola e das salas de aula diversas vezes ao dia, redução da quantidade de alunos nas salas, uso de máscaras e de álcool em gel, entre outros fatores”, explicou Rosane, ”Tenho pais me perguntando qual será o critério de aprovação dos alunos; sobre como proceder para que o filho repita o ano para adquirir a base necessária para encarar o desafio do ensino médio e da faculdade; outros me questionando sobre os desdobramentos possíveis caso não permita o retorno de seu filho às aulas, se houver qualquer possibilidade de contágio. Infelizmente ainda não temos estas respostas, dependemos das definições do estado e do Ministério da Educação”, concluiu Rosane.

Diretora da José Pasqualini apresenta o lado humano da educação

A professora Ana Lucia Siqueira, diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental José Pasqualini, manteve a mesma linha mestra apresentada pela secretária de educação, reafirmando o ineditismo da situação e do momento, e a forçosa e célere adaptação a todo o pacote de inovações impostas a todos os envolvidos. Ela aceitou conversar sobre o universo da Pasqualini, deixando claro que nem tudo poderia ser considerado para as demais escolas do município.

Neste momento delicado, Ana considera que mais importante do que a verificação do desenvolvimento das atividades elaboradas, é afagar as famílias, é a preocupação se os alunos estão se alimentando, se possuem comida em suas residências. “Não pode ser ignorada a condição de que alguns alunos recebiam na Pasqualini a única refeição quente do dia, não podemos deixar de nos preocupar se o pai ou a mãe perderam o emprego ou se aceitaram a redução de jornada e de salários para não perde-lo”, se emociona Ana.

A diretora faz questão de elogiar o esforço de sua equipe e dos alunos e seus familiares por, apesar da situação, conseguirem, seguir adiante, “Temos muito orgulho de nossos alunos que mesmo com as dificuldades, alcançaram 78% de apostilas de atividades retiradas na escola e respondidas, além das acessadas pela internet, e já se foram 6 etapas de entregas de atividades”, comemorou Ana Lucia, e prosseguiu, “nossos professores, independentemente de serem de 20h ou de 40h, ultrapassam esta carga ao além do planejamento e elaboração das atividades, atendem os alunos a qualquer momento de pedido de ajuda”.

A diretora considera o ano letivo perdido, independente de ocorrer, ou não, determinação do MEC para que nenhum aluno seja reprovado, “é inegável o esforço de professores, alunos e familiares, mas não pode se comparar o ensino e o aprendizado que está sendo ofertado, com o ensino presencial, a qualidade não é a mesma, e a capacidade de aprendizado também não.”, explicou.

Ana também ressaltou o papel fiscalizador que exerce, “hoje um pai ou uma mãe pensa duas vezes antes de espancar um filho, ou fazer algo pior, porque chegando aqui, a professora verá uma marca física ou comportamental, denunciando que algo aconteceu; e agora, com essa ausência forçada, como fica isso?”.

Como os pais estão passando este momento

Conversamos com a Karina e seu filho Gabriel, que apesar de não representarem a maioria da família Pasqualini, nos ofereceram um pouco do que estão vivenciando.

Segundo Karina, ela ajudava os filhos tirando eventuais dúvidas dos exercícios ou lições que levavam para desenvolver em casa e hoje não; hoje os pais recebem as atividades e precisam entender para “ensinar” aos filhos e considera que nem todos os pais possuem esta facilidade. Karina está cursando pedagogia, mas entende que nem todos os pais possuem esta condição e pior, nem todos conseguem administrar este momento de pressão em que todos sofrem. “Iniciamos o ano fazendo planos e começando a execução de alguns projetos e de repente fomos obrigados a reprogramar tudo ou simplesmente cancelar. Esta quarentena mexeu demais com as vidas das pessoas, as crianças sentem falta dos colegas e das professoras, nem todos conseguem assimilar os ensinamentos e as atividades, os pais precisaram se reorganizar e até apelar para parentes para assumir funções”. Karina julgou o início mais difícil pois as crianças precisaram se adaptar com pai e mãe ensinando e aceitar o distanciamento da escola, dos professores e dos coleguinhas. “No início os pequenos ficaram manhosos, atitude que não mostram em sala de aula aonde são independentes. Eles são inteligente e nos surpreendem com um lado que possuem e que muitos pais desconhecem”.  Neste momento o Gabriel, aluno do Pré II, participou da entrevista e registrou a saudade que sente de colegas e professores, e aproveitou para dizer que pretende ser policial quando crescer. Karina encerrou a conversa dizendo da importância do momento, “devemos aproveitar e mudar nossa postura olhando para nossos filhos com amor e carinho, entendendo o impacto que também estão sofrendo e conversar com eles, ouvir seus sentimentos”.

Alunos sentem a dificuldade do momento

Conversamos com o Vilson Zirsdorff, aluno do oitavo ano, que gasta em torno de duas a três horas diárias para desenvolver as atividades, conseguindo concluir a apostila em aproximadamente três dias. Ele reclama da reclusão e da falta que sente dos amigos e escola. “Hoje eu comecei a sentir dificuldade em matemática, coisa que eu não sentia. No início o professor estava ali e tirava qualquer dúvida, hoje é mais demorada e não é mais a mesma coisa”.

Como os professores estão encarando a situação

O Professor de matemática, Felipe Rafael Rodrigues, falou sobre o ineditismo do momento e apresentou o que julga serem as consequências que teremos.

“O momento que vivemos é extremamente delicado e complicado. Mas precisamos enfrentar esse obstáculo como uma grande oportunidade, com empatia e união, minimizando alguns danos que serão evidentes na área da educação.”

Felipe considera o momento desafiador para todos, exigindo adaptação e a busca diária pelo aprendizado. “Este momento nos exige mais dedicação do que antes, pois precisamos explorar diversos recursos e ferramentas que são novos para alguns professores.”. O Professor considera que haverá um atraso para que se atinjam os objetivos programados para cada etapa/ano de ensino e recomenda “que os alunos continuem realizando as atividades dentro de suas condições para que se mantenha o mais importante, que é o vínculo com a escola e o prazer pelos estudos”. De qualquer forma ele entende que a Educação vem buscando garantir o cumprimento do Art. 53 do ECA.

“Certamente que não gostaríamos de estar vivendo esse momento delicado. A sala de aula, o contato com os alunos, a troca no dia a dia além de fazer muita falta é fundamental para o processo de ensino aprendizagem. Porém essa experiência vem contribuindo e proporcionando novos conhecimentos, aprendizado e nos colocando diante de uma realidade bem próxima através da nova era digital, com o avanço significativo da tecnologia. Um momento de superação e evolução.” analisou Felipe, e finalizou “Para esse momento delicado, minha sugestão seria que fosse incluído nas políticas públicas já existentes, um programa de inclusão digital para garantir  ainda mais qualidade no processo de ensino e aprendizagem através de aulas virtuais com. Nem todas as crianças e adolescentes tem acesso à tecnologia e internet, ferramenta fundamental para processo de aulas não presenciais.”.